Zé Pedrada

Lisergias de um fumante asmático, diretamente do Siará, a Terra do Sol

  • Afro-Ego Death

    afro-egodeath

    O Beija-Flor e a Tulipa

    Os louva-a-deus podem comer, além de outros insetos, animais pequenos, como aves e répteis.
    POV: Você é um beija-flor tranquilo voando por aí, sentindo o sol nas suas penas e seu bico rasgando o vento. Você avista uma linda orquídea, colorida e cheirosa, olha admirado e boa em direção a ela, despreocupado e contente. Uma das orquídeas aparenta estranha, você para no ar por alguns segundos, analisando aquela flor que não parece compartilhar com o ambiente nenhuma das características das outras orquídeass ao seu redor, nada além da cor. Seu metabolismo é muito acelerado, e a fadiga chega como um choque, você não quer se aproximar, mas a fome e a sede gritam dentro de você, e em poucos minutos você pode acabar desmaiado. Você voa até as flores, gelado de medo, consumido pela fome e pela sede, se aproxima delas, e então para, neutralizado e sem poder se soltar, sem entender o que aconteceu, você desesperadamente começa a sacudir seu corpo, sem sucesso, sem entender nada, isso até você reparar na sua visão periférica - um animal estranho e frio, com seu esqueleto reluzente e rosado, segura você em suas compridas patas espinhosas, e te encara sem piscar. Os milhares de olhos daquela criatura não expressam uma única emoção, você não sente calor no corpo dela, nenhuma batida no coração, só ouve o som da boca dela, que você não pode ver, nem pode imaginar que tipo de estrutura esquisita poderia fazer aquele som, mas se arrepia em desespero enquanto o som se aproxima mais e mais do seu corpo. De repente dor, muita dor, e o sangue escorrendo pelas suas penas, e mais dor - a criatura arranca sua carne, pedacinho por pedacinho devagar, como se garras estivessem arrancando cada um deles, você engole seco, fecha os olhos e chora, esse é seu fim com toda certeza. A criatura está comendo uma das suas asas, vai rasgando e rasgando devagarinho, e quando não sobra nada, passa pra outra, arrancando pedaço por pedaço, bem devagar, você vê o sol descendo no céu, e se desespera mais e mais, o céu claro é a única coisa que ainda te dá esperança, lembrando dos tempos em que você voava e o brilho do sol refletia as coloridas cores nas suas penas, e agora o escuro lentamente começa a cair sobre o mundo (seu mundo, seu pequeno mundo de passarinho), e as lágrimas escorrem pelas suas penas, se encontrando e se juntando ao sangue que corre pelo seu corpo, caindo nas orquídeas em densas gotas e escorrendo até a terra. Você retoma a consciência depois de um profundo desmaio que você não sabe dizer se durou minutos ou horas, e se vê na mesma situação, a criatura ainda o segurando naquelas patas que espetam sua carne, e percebe que já não sente suas asas, nem suas patas, nem sua cauda, você agora se resume a uma cabeça presa em um corpo aleijado, com suas vísceras vazando pra fora dele, e implora pra que aquilo acabe logo. Você já não sente nada do seu corpo, agora é uma cabeça que logo vai perder a consciência, a criatura te larga, e você em seus últimos segundos a vê, esplêndida, elegante e fatal, uma das criaturas mais lindas que você já viu, ela limpa suas patas e volta para sua postura, firme e delicada. Você, no seu último suspiro, se vê apaixonado pela criatura, e na poça de seu sangue e lágrimas você cai, uma cabeça vazia, uma cabeça morta, marcada pelo sentimento de se ver junto daquilo para sempre, o último sentimento que passou pela sua cabeça. O tempo passa, sua consciência e sua energia é reciclada pela natureza, e no meio daquela poça de dor você renasce, agora como uma jovem orquídea, que rasga o solo de dentro pra fora gritando para se encontrar com sua paixão. A sua paixão o vê, caminha até você friamente, e o elege como sua orquídea favorita, e ali fica, naquela posição elegante, fria e fatal. Você é a orquídea dela, e você a abraça com suas pétalas, dando lar e segurança para a frieza de sua dama.

    (Imagem retirada do Google)